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Friday, April 15, 2011

:: Inverno ::

(image by Felicia)

Veio um silêncio
desconfortável
eu perdi a voz
e o verso
perdi o rumo
e todo o resto
mas do que mais
sinto falta
é de você.



Thursday, October 14, 2010

:: Sendo Eleanor Rigby ::

(image by Liv)

Eu tentei isso várias vezes.

A coisa do diário.

Até perceber que a solidão dos dias se repetia numa frequência que eu não queria lembrar, numa frequência que eu não queria que ninguém conhecesse.

Todo mundo tem pena dos solitários.

Até os Beatles.

Veja a imagem que pintaram da Eleanor Rigby. Pobre mulher.

Vê? Vê o que estou fazendo? Estou me apiedando dela. Estou me apiedando da pobre mulher apesar da possibilidade de que ela tenha sido só um nome escolhido para um personagem fictício numa música.

Mas eu não acredito muito nessa hipótese. Não acredito porque ela tem o olhar de muitas pessoas que eu vejo na rua diariamente, o mesmo gosto para roupas, o mesmo corte de cabelo, o mesmo jeito de caminhar invisível sobre o planeta.

Eu seria Eleanor se não fizesse tanto barulho, se não risse alto.

Eu poderia ser uma locomotiva.

Não há nada de errado com elas, há? São feitas de pura força e ferro e cortam paisagens de pedra se precisarem.

As locomotivas é que são felizes. E estão sempre cercadas de pessoas.

Eu nunca quis ser Eleanor Rigby.

Mas vou enfrentar o meu destino seja qual for.

(Então, brindemos à solidão - porque é melhor não ter medo.)




Sunday, August 15, 2010

:: O céu ::

(image by Rwata)

Cavava um poço
atravessando camadas
de animais mortos
argila
e rocha
em meu coração
: pensava saciar minha sede da vida.

Deitada ali perto,
cansada de cavar sem sucesso,
caí dentro do buraco
no início de um sonho
e fiquei lá no fundo
sentada
olhando o céu.

Sunday, July 18, 2010

:: Carta aberta ao homem do passado ::

Querido homem do passado,

Eu sinto muito a sua falta, todos os dias, mas às vezes um pouco mais. Quando nos conhecemos, você veio andando em minha direção no escuro e então transformou tudo em luz. Quando você foi embora a luz se apagou, e junto com ela a lua e as estrelas - a noite nunca foi tão assustadora. Sinto falta de longas conversas ao telefone, de abraços eternos em que ninguém se solta, de mãos dadas, de carinho despretensioso, dos seus olhos, da sua risada, de você deitado no meu colo olhando o céu e falando de livros, arte, da vida.

Nossas vidas mudaram muito no último ano, tivemos que aprender a lidar com ausências e presenças, com o inverno da alma, e as consequências das escolhas que fizemos. Crescemos separados. Abrimos as portas para outras pessoas, falamos cada vez menos um com o outro, um do outro, embora nossas lembranças e pensamentos não nos abandonem. Unidos por girassóis, botões, elefantes, filmes, teatro, livros, céus, nuvens, estrelas, risadas; separados por um oceano, um fuso horário, o cotidiano frio e impessoal. Eu tenho medo de nunca mais sermos o que éramos. Tenho medo de nos tornarmos estórias que contaremos aos nossos filhos e netos, apenas estórias com finais inevitavelmente estranhos e incongruentes, nada mais.

Beijo carinhoso.
Sempre.


Sunday, June 27, 2010

:: Como Georgina Eulália quase perdeu o céu ::


(image by El-Joker)

"Por quê? Bem... eu não sei, não. Tem sempre que haver um motivo? Está bem. Acho que eu estava entediada. Isso mesmo: entediada. Veja bem, acordei cedo como de costume e arrumei a casa cantarolando minhas músicas. É, você pode cantar à vontade quando já criou todos os filhos e mora sozinha numa casa grande e cheia de espaços vazios. Eu estava lavando umas folhas de alface quando senti uma falta de ar, uma coisa estranha. Eu pensei 'meu Deus, não vou conseguir fazer isso, não vou conseguir terminar essa salada'. Então eu peguei uma faca na gaveta e fui até o quarto. Eu fiquei sentada lá na cama ouvindo uns passarinhos, o cachorro da vizinha latindo, os carros passando na rua, o silêncio da casa. A lâmina cortou a pele com tanta facilidade que eu fiquei pensando 'a gente não vale nada mesmo, olha só.' Quando eu vi o sangue, virei a cabeça pro outro lado. Fiquei lá, sentada. Não me lembro de mais nada. Acordei aqui nessa cama de hospital com minha filha mais nova me olhando bem de perto. Proximidade. Não sei qual foi a última vez em que estivemos tão perto uma da outra. Os outros entraram em seguida. E parecíamos uma família novamente."


(Publicado anteriormente em Diários de Filosofia)