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Wednesday, January 18, 2012

#529


(image by Jessica)


Era uma casa sem histórias na hora de dormir,
mas cheirava a alecrim
e tinha uma mãe 
que cantava na cozinha
entre os legumes
pensando em formas engenhosas
de nos fazer comê-los.

It was a house with no bedtime stories,
but it smelled like rosemary
and there was a mother 
dressed in love and an apron

singing in the kitchen
among vegetables,

trying to come up with artful plans
to make us eat them.

Friday, January 6, 2012

#525



(image by Lucy Jee)

Um moço perto da janela
com uma xícara de café,
bebendo a vida lá fora 
em pequenos goles.


Devo ter dito antes -
que gostaria que fóssemos alguma coisa -
quase um sussurro, para mim mesma.
Duvido que tenha ouvido.


Creio que foi num sonho,
ele me viu olhando outro dia
e sorriu o mais gentil dos sorrisos,
o bem e o mal jogavam xadrez dentro dele.
(Dentro de mim jogam cartas.)


Num desses dias de sorte
direi a ele como me sinto:
Bem vindo ao meu coração
eu sei que está uma bagunça
mas eu não costumo trazer muita gente aqui.


Ele saberá que não minto.



A guy sitting near the window
with a cup of coffee,
sipping life outside occasionally

I may have said it before -
that I wished we could be something -
very quietly, to myself.

I’m not sure he listened.

I think it was in a dream,
he caught me looking the other day
and smiled the nicest of all smiles,

good and evil played chess inside him.
(They prefer cards when it's inside me.)

One of these lucky days
I’ll tell him how I feel:
Welcome to my heart, I know, it’s a mess,
but I don’t bring many people here.

He’ll know I'm no liar.


--
Kenia Cris

Monday, October 31, 2011

#512


(Image by Felipe Dunley)

Ao nascer do sol
eu pertenço à terra,
eu sou um com o deserto -
meus primos e eu contra estranhos.


At sunrise
I belong to the earth,
I am one with the desert -
my cousins and I against strangers.


(To Felipe Dunley on the occasion of his birthday)

(About Bedouin)

Thursday, September 15, 2011

#504


(image by stachelpferdchen)

A minha versão corajosa
com armadura completa
e espada em punho,
mataria os monstros que habitam
as sombras que as suas mãos
fazem quando se movem pelo papel,
a minha versão corajosa

- quer fossem tão altos quanto sequóias
ou tão concretos quanto moinhos de vento.


The brave-hearted me,
dressed up in shiny armor,
sword in hand,
would duel and slay
the monsters inhabiting
the shadows
your hand makes on paper
while you write,
the brave-hearted me.

It wouldn't mind them
being as tall as the tallest trees
or as concrete as windmills.

Friday, September 9, 2011

#500


(image by deep_south88)

Essas linhas
não se traduzem.

Doze leituras diferentes
do mesmo coração
ainda falham em explicar

os espaços quietos e solitários
nas horas ruidosas que nos separam.

These wavy lines
don't translate into
words

twelve different readings
of this heart
fail to tell you

of the lonely stillness
in the thundering hours
between us.

Thursday, July 21, 2011

:: Janela ::

Saudade tem gosto e textura diferentes para cada pessoa.

--
Kenia Cris

Saturday, June 11, 2011

:: Vazio ::

(image by BlackMamba)

Voltar para casa
e não te saber lá
me faz perder
toda a vontade
de chegar.



Friday, September 10, 2010

:: Porto ::

(Paper boats over the sea - by Satrapi)

Silêncio demais nos olhos,
barulho demais no coração.

O que quer dizer com isso?
Por que preciso estudar biologia?
Por que as pessoas mentem?

Desenhe um bom barco,
compre uma bússola e
conheça lugares
dentro e fora
da sua cabeça.

Você está aí?
Será que os nossos pensamentos
se encontram em algum lugar?

Eu estou aqui, durma.

Vamos nos ver num sonho
essa noite?


Thursday, September 2, 2010

:: O dia seguinte ::

(image by Samet ŞEViK)

Quando amanhecer,
eu vou te amar
com os olhos ainda fechados.



Thursday, August 26, 2010

:: Conclusão ::

(Image by Victor Eredel )

Felicidade é um jeito diferente de olhar
o que a gente vê todos os dias
do mesmo jeito.

Sunday, August 8, 2010

Meet me in Paris

(image by Pauline Bruit)

Me encontre em Paris
há alguns séculos atrás
na Rive Gauche

para um café
ou um pouco de bourbon

para uma boa conversa
e alguma poesia.

Sunday, July 18, 2010

:: Carta aberta ao homem do passado ::

Querido homem do passado,

Eu sinto muito a sua falta, todos os dias, mas às vezes um pouco mais. Quando nos conhecemos, você veio andando em minha direção no escuro e então transformou tudo em luz. Quando você foi embora a luz se apagou, e junto com ela a lua e as estrelas - a noite nunca foi tão assustadora. Sinto falta de longas conversas ao telefone, de abraços eternos em que ninguém se solta, de mãos dadas, de carinho despretensioso, dos seus olhos, da sua risada, de você deitado no meu colo olhando o céu e falando de livros, arte, da vida.

Nossas vidas mudaram muito no último ano, tivemos que aprender a lidar com ausências e presenças, com o inverno da alma, e as consequências das escolhas que fizemos. Crescemos separados. Abrimos as portas para outras pessoas, falamos cada vez menos um com o outro, um do outro, embora nossas lembranças e pensamentos não nos abandonem. Unidos por girassóis, botões, elefantes, filmes, teatro, livros, céus, nuvens, estrelas, risadas; separados por um oceano, um fuso horário, o cotidiano frio e impessoal. Eu tenho medo de nunca mais sermos o que éramos. Tenho medo de nos tornarmos estórias que contaremos aos nossos filhos e netos, apenas estórias com finais inevitavelmente estranhos e incongruentes, nada mais.

Beijo carinhoso.
Sempre.


Sunday, June 27, 2010

:: Como Georgina Eulália quase perdeu o céu ::


(image by El-Joker)

"Por quê? Bem... eu não sei, não. Tem sempre que haver um motivo? Está bem. Acho que eu estava entediada. Isso mesmo: entediada. Veja bem, acordei cedo como de costume e arrumei a casa cantarolando minhas músicas. É, você pode cantar à vontade quando já criou todos os filhos e mora sozinha numa casa grande e cheia de espaços vazios. Eu estava lavando umas folhas de alface quando senti uma falta de ar, uma coisa estranha. Eu pensei 'meu Deus, não vou conseguir fazer isso, não vou conseguir terminar essa salada'. Então eu peguei uma faca na gaveta e fui até o quarto. Eu fiquei sentada lá na cama ouvindo uns passarinhos, o cachorro da vizinha latindo, os carros passando na rua, o silêncio da casa. A lâmina cortou a pele com tanta facilidade que eu fiquei pensando 'a gente não vale nada mesmo, olha só.' Quando eu vi o sangue, virei a cabeça pro outro lado. Fiquei lá, sentada. Não me lembro de mais nada. Acordei aqui nessa cama de hospital com minha filha mais nova me olhando bem de perto. Proximidade. Não sei qual foi a última vez em que estivemos tão perto uma da outra. Os outros entraram em seguida. E parecíamos uma família novamente."


(Publicado anteriormente em Diários de Filosofia)