Tuesday, February 9, 2016

#636

 (image by C. Steele)

Esta é novamente
uma língua
para dizer.

Volta dos mortos
sem estórias,
mas pura;

lambe velhas verdades
como a feridas
abertas

com melhorada
compreensão de
sensibilidade gustativa.

(For the English version, visit An Exercise on Existing)

Thursday, January 14, 2016

#635

(image by Lana Tustich)


Tomei uma decisão importante:
seremos amigos,
o tempo e eu.

Prometo paciência.

Prometo envelhecer
um ano de cada vez.

Prometo que te espero.

Hoje cansaço.
Hoje, o décimo quarto dia
das minhas férias e tenho
muito trabalho.

Guardo o choro.

Penso na minha primeira casa e
no quanto gostaria que você
tivesse uma cópia da chave.

Amanhã abrir a porta,
gritar o teu nome,
saber-te onde

descansar segura
meus sonhos
no teu peito.

(For the English version, visit An Exercise on Existing)

Wednesday, June 10, 2015

#634


Uma língua 
feita de palavras perdidas.
Eu. Você. Sossego.

Enquanto você esteve fora,
eu caminhei sozinha
de um pólo ao outro

do meu pequeno mundo,
o coração escondido
onde niguém pudesse 

encontrá-lo,
você o meu único
ponto fraco.


A language
made of
lost words.

You. I. Quiet.
While you were away,
I walked my little world

from pole to pole by myself,
hid my heart
where no one else

could find it,
my only weakness,
you.

Tuesday, March 18, 2014

#634

(image by Güven Ceylan)

Não era o meu desejo
que partisse sem resposta 
ao soluço dos dias.
Contou-os todos com tanto cuidado.

Fez melhor uso 
dos calendários 
do que das manhãs,
perdeu o riso 
dos primeiros pássaros,

manteve a distância segura de qualquer apego.
Os pés escreveram estradas de silêncio
pelas quais hoje segue,
senhor de sua verdade e acertos.


It wasn't my wish
that he left without an answer
to the hiccups of days.
He counted them all so carefully.

He made a better use of calendars
than of mornings,
he lost the laughter
of the first birds,

he kept safe distance from any attachment.
His feet wrote roads of  solitude
along which he walks now
a master of his truth and correction.

Friday, January 31, 2014

#633


 (image by Pearly Snappin')

Há qualquer peso sobre o que me dizes,
qualquer intenção além de ferir-me
quebrar-me a mim
e à minha alma em pedaços tão pequenos

que não mais façam sentido juntas
todas as partes.


Incluem-se em mim
uma a uma as tuas angústias
ainda durmo enquanto sobe
as tuas ladeiras
nos meus sonhos
vejo o teu percurso,


vejo-te afastando-se
até perderem-se de mim
os teus olhos

até que não seja mais possível
ver-te com esses olhos meus.


There is any weight on these things you tell me
any intention other than causing me to suffer,
other than breaking me down
and my soul
in pieces so little
they make no sense
put back together.

Your angst in contained in me
I'm still asleep
while you go up your hills
in my dreams I see the path you make,

I see you disappearing in the distance
your eyes slowly losing me
until I can't see you either
with these eyes of mine.


 

Wednesday, January 8, 2014

#632

 (image by Jess Sands)

Disseco os homens
do meu passado
para amá-los.


Olhando-os abertos,
sangrando,
consigo perdoá-los.


Abertos
parecem humanos
compreendo-lhes os motivos.


I dissect 
the men of my past
to love them.

Looking at them open
and bleeding
I can forgive them.

Open they look human.
I understand their
reasons.

(Shared on Poets United)

Wednesday, January 1, 2014

#631

(image by Lingmei Si)

Cinco segundos,
tomar fôlego
e incluí-lo
nas minhas
horas.

Porque conhece
as coisas
que não digo

e rouba-me delas,
esconde-as
onde não mais
seja possível
pensá-las

empresta-me
a liberdade
em suas asas,

quando retira
dos meus ombros
o peso das 
palavras.


Five seconds
to catch my breath
and to include him
in my hours.

Because he knows
the things
I don't say

He steals me
from them
and hides them
where they won't
be thought of
again.

He lends me
the freedom
in his wings

when he takes
off my shoulders
the weight of
words.

#630

(image by http://amantsdeminuit.deviantart.com/)

Na primeira hora 
do Ano Novo
somos todos solitários

com sonhos soltos
iluminados pelos
fogos de artifício

e promessas repetidas
misturadas à vodka, 
choro e risos.

In the first hour on
New Year's Eve
we're the lonely people

with loose dreams
brought to light
by fireworks

and recurring resolutions
mixed to vodka, tears
and laughter.

Friday, December 27, 2013

#629

(image by Angela Rosati)

Em dezembro
abundante 
em chuva

a cabeça
que abriga 
monstros

nas
noites
escuras

lembra
as velhas
rezas.

In December
with the
abundance of
rainfall

the head
which
shelters
monsters

all through
the darkest
nights

remembers
how to
pray.

Wednesday, December 11, 2013

#628

(image by Micci Rae)

Essas palavras respiram
para te dizerem uma verdade.

Foram escolhidas
entre todas as outras
porque têm o peso
e o tamanho certo

para suportarem o enrijecimento
imposto pelos anos
quer vivam escondidas em mim
ou caminhem livres pelo teu corpo.

A progressão da vida
pode render-lhes desgaste

mas hoje são tão claras
quanto quando ainda podia
lê-las diretamente na minha pele,

estendem-se diante dos teus olhos
tão honestas
quanto o universo.

Amo-te,
eis a minha verdade
que existe voluntária e
independe do teu sim.

Quando minhas palavras respiram,
eu posso também.


These words take a deep breath
to tell you a truth.

They've been chosen
among all the others
because they have the right
weight and height

to avoid the stiffening
imposed by the passing of years
either locked down inside me
or moving freely along your body.

Life's progress might
wear them off

but today they are as clear
as before when you could still
read them straight from my skin,

they expand before your eyes
and they do so in a way
as honest as the universe.

I love you,
this is my truth
it exists voluntarily
and does not depend on
your positive response.

When my words breathe,
I do too.

Thursday, December 5, 2013

#627

(image by Denise J.)

Das coisas presenteadas 
ao abandono:

trinta noites de sono
no mês passado

um e-mail 
não respondido

o pretérito imperfeito
do subjuntivo

a dor do último
abraço 

ver-me
com teus olhos.

Of things offered as gifts
to abandonment:

thirty nights of sleep
last month

a not responded
e-mail

the Subjunctive
Imperfect Past

the pain contained
in our very last hug

seeing myself
through your eyes.

Tuesday, November 26, 2013

#623


Um dia sem o teu nome. 
Ouvi Pedros e Bernardos, 
Eduardos e Maurícios - 
Nenhuma trombeta.

Teus sons agora misturam-se à floresta:
o choro segue o curso manso do rio, 
o grito aguarda sob um barranco,
o riso namora a copa de um medronheiro.

É novembro, os dias são mais longos
espero-te nas horas claras,
não me encontras.
Deito-me com o teu silêncio.

A day without your name.
I hear Peters, and Bernards,
Edwards and Maurices
but no trumpet.

Your sounds are now part of the forest:
your crying follows the quiet flow of the river,
your scream is asleep down a gully,
your laughter dreams about the top of a strawberry tree.

It's November, days are longer
I wait for you in the light hours,
you don't find me.
I go to bed with your silence.

Thursday, November 21, 2013

#622

(image by Hesi)

Aprendê-lo de ouvido.

Traçar a tua silhueta no ar
no lugar que costumava ocupar
à mesa.

Seguir as coordenadas 
na tua voz
e sabê-lo 
perto da janela.

Identificar os teus pontos cegos
enquanto se move pelo quarto

tropeçando em si mesmo,
engolindo palavras que gostaria de
ter sabido,
respirando afastamento.


of learning you
by hearing

of tracing your silhouette
in the air
on the place you used to occupy
across from me at the table

to follow the coordinates
on your voice
and find you near the window

discover your blind spots on the sound
of you moving around
the bedroom

stumbling yourself
munching words I'd like to have heard
breathing separation.

Saturday, October 26, 2013

#621

(image by Marina)

Adormeço 
cansada dos dias,
de acreditar;

de ver estender-se 
à minha volta 
um abismo de tempo.

Quando estávamos juntos
o tempo nunca houve.
Enquanto explorava as minhas gavetas,

enquanto descobria os 
espaços silenciosos da nossa varanda,
enquanto você dormia,

eu me perdi nas tuas horas.


I fall asleep
too tired for another day,
too tired to believe;

to continue watching
as an abyss of time
extends in every direction
around me.

When we were together
time was non-existent.

While you were exploring my drawers
or discovering silent spots in our yard,
while you were sleeping

I lost myself  in your hours.

Wednesday, October 23, 2013

#619

(image by Adrian)

Não se ocupe
dos espaços vazios
ou da maneira como coisas e pessoas 

se movem suspensas
de um lado para o outro
na ausência de amor.

O mundo fica tão vasto
que parece não mais ser possível 
carregá-lo nos olhos.

O ar fica tão pesado que é 
mais fácil permanecer imóvel
e aproveitar o silêncio.

Eis aqui um segredo:
Um dia você acorda e 
essas impressões terão caído por terra

e você caminhará entre elas
sem memória alguma 
de como começaram,
de como terminaram.


Do not bother with the empty spaces
and the way things and people move
to and fro in suspension
in the absence of love.

The world grows so vast
one can no longer carry it in the eyes,


The air grows so heavy
one would rather sit still 
and use some silence,

(Here's a secret:
one morning you'll wake up,
and these impressions will have fallen to the ground
meaningless
and you'll move through them with
no memory of their ending or beginning.)

Tuesday, October 22, 2013

#618

(image by Raluca Csernatoni)


I.

Estou trabalhando no meu carma,
fiz uma tatuagem no verão passado
- precisava de um mantra -
diz 'deixe ir'.
Ainda assim, 
não sou o Buda.


II.

Essa noite chove muito,
perco a Quadrântida.
Quantos desejos
são desejos demais 
para alguém que só tem
nuvens?


III.

Se eu sair desse lugar
algum dia,
vou seguir o meu caminho
sabendo que você vive dentro
de uma dessas janelas 
iluminadas no meio da noite.
Como descobrir a janela certa?


IV.

Sinto imensamente a tua falta.


I.

Been working on my karma,
got a tattoo last summer
- I needed a mantra -
it says 'let go';
still, I am no Buddha.


II.

Tonight is pouring down,
I'm losing the Quadrantids.
How many wishes are
too many wishes for someone
who only has clouds?


III.

If I ever leave this place
I'll walk my ways
knowing you're inside
one of the windows I'll cross.
How can I guess the right one?


IV.

I miss you so bad.


Sunday, October 20, 2013

#617

(image by Ivan Murdzhev)

Queria dizer que
você não mais precisa
me empurrar.

Já está longe o suficiente
para ainda ter medo das minhas mãos
ou das minhas palavras,

ou de sentir algo.


I wanted to tell you
You no longer have to
push me away.

you're far enough never again
to fear my hands,
or my words,

or feeling anything.

Friday, October 18, 2013

#616

(image by Kalapcs Emoke)

Meus olhos perdem o Norte.
O coração aponta para o Sudoeste.

Onde você sobe e desce morros
de bicicleta 
procurando a sombra das árvores
que são tuas, 
perdido em pensamento, 
solfejando uma música
que talvez eu conheça.

Começo a medir saudade 
em quilômetros,
a pensar a vida em rios,
a estudar mapas para descobrir 
quantas cidades nos separam,
quantas estradas ainda nos unem.


My eyes lose North.
This heart now points to Southwest.

Where you go up and down hills
on a bike
searching for the shade of your own trees
lost in thought while
humming a song I might know.

I start to measure loneliness
in kilometers
to think of our lives as the lives of rivers,
to study maps to discover
how many cities there are between us,
how many roads can bring us together.

Saturday, October 12, 2013

#615


O que quer que eu ame,
o destino rouba de mim

- além de cuidado,
proximidade
e esse coração.

Minhas memórias, 
reduzidas a frases mínimas,
eu as repito 

para fingir que tive um passado,
para fingir que tenho fé no futuro. 

Quando não há pelo que esperar,
vou para a cama chorando
e acordo líquida.

Atravessa-me
como um rio
a mudança.


Whatever I love,
destiny steals from me

- and care, closeness,
and this heart.

My memories, reduced to
minimalistic sentences,

I repeat them to myself
to pretend I had a past,

to pretend I have some faith
in the future.

When I have nothing to wait for,
I go to bed crying and wake up
fluid.

It flows through me
like a river,
change.

Tuesday, October 8, 2013

#614

(image by Julia)

Como é que elas simplesmente
deixam tudo para trás,  
as nuvens?

Eu, que tanto aprecio 
o toque impessoal do chão
sob os meus pés descalços,
eu que tenho medo de altura,
eu que não tenho asas:

A mão gentil do amor
me aproxima do céu
para me ensinar sobre queda.


How can they simply leave everything behind,
the clouds?

I who cherish the impersonal touch of the
ground underneath my bare feet,
I who am afraid of heights,
I who have no wings:

love's gentle hand
carries me to heaven
to teach me about falling.