Friday, December 27, 2013

#629

(image by Angela Rosati)

Em dezembro
abundante 
em chuva

a cabeça
que abriga 
monstros

nas
noites
escuras

lembra
as velhas
rezas.

In December
with the
abundance of
rainfall

the head
which
shelters
monsters

all through
the darkest
nights

remembers
how to
pray.

Wednesday, December 11, 2013

#628

(image by Micci Rae)

Essas palavras respiram
para te dizerem uma verdade.

Foram escolhidas
entre todas as outras
porque têm o peso
e o tamanho certo

para suportarem o enrijecimento
imposto pelos anos
quer vivam escondidas em mim
ou caminhem livres pelo teu corpo.

A progressão da vida
pode render-lhes desgaste

mas hoje são tão claras
quanto quando ainda podia
lê-las diretamente na minha pele,

estendem-se diante dos teus olhos
tão honestas
quanto o universo.

Amo-te,
eis a minha verdade
que existe voluntária e
independe do teu sim.

Quando minhas palavras respiram,
eu posso também.


These words take a deep breath
to tell you a truth.

They've been chosen
among all the others
because they have the right
weight and height

to avoid the stiffening
imposed by the passing of years
either locked down inside me
or moving freely along your body.

Life's progress might
wear them off

but today they are as clear
as before when you could still
read them straight from my skin,

they expand before your eyes
and they do so in a way
as honest as the universe.

I love you,
this is my truth
it exists voluntarily
and does not depend on
your positive response.

When my words breathe,
I do too.

Thursday, December 5, 2013

#627

(image by Denise J.)

Das coisas presenteadas 
ao abandono:

trinta noites de sono
no mês passado

um e-mail 
não respondido

o pretérito imperfeito
do subjuntivo

a dor do último
abraço 

ver-me
com teus olhos.

Of things offered as gifts
to abandonment:

thirty nights of sleep
last month

a not responded
e-mail

the Subjunctive
Imperfect Past

the pain contained
in our very last hug

seeing myself
through your eyes.

Tuesday, November 26, 2013

#623


Um dia sem o teu nome. 
Ouvi Pedros e Bernardos, 
Eduardos e Maurícios - 
Nenhuma trombeta.

Teus sons agora misturam-se à floresta:
o choro segue o curso manso do rio, 
o grito aguarda sob um barranco,
o riso namora a copa de um medronheiro.

É novembro, os dias são mais longos
espero-te nas horas claras,
não me encontras.
Deito-me com o teu silêncio.

A day without your name.
I hear Peters, and Bernards,
Edwards and Maurices
but no trumpet.

Your sounds are now part of the forest:
your crying follows the quiet flow of the river,
your scream is asleep down a gully,
your laughter dreams about the top of a strawberry tree.

It's November, days are longer
I wait for you in the light hours,
you don't find me.
I go to bed with your silence.

Thursday, November 21, 2013

#622

(image by Hesi)

Aprendê-lo de ouvido.

Traçar a tua silhueta no ar
no lugar que costumava ocupar
à mesa.

Seguir as coordenadas 
na tua voz
e sabê-lo 
perto da janela.

Identificar os teus pontos cegos
enquanto se move pelo quarto

tropeçando em si mesmo,
engolindo palavras que gostaria de
ter sabido,
respirando afastamento.


of learning you
by hearing

of tracing your silhouette
in the air
on the place you used to occupy
across from me at the table

to follow the coordinates
on your voice
and find you near the window

discover your blind spots on the sound
of you moving around
the bedroom

stumbling yourself
munching words I'd like to have heard
breathing separation.

Saturday, October 26, 2013

#621

(image by Marina)

Adormeço 
cansada dos dias,
de acreditar;

de ver estender-se 
à minha volta 
um abismo de tempo.

Quando estávamos juntos
o tempo nunca houve.
Enquanto explorava as minhas gavetas,

enquanto descobria os 
espaços silenciosos da nossa varanda,
enquanto você dormia,

eu me perdi nas tuas horas.


I fall asleep
too tired for another day,
too tired to believe;

to continue watching
as an abyss of time
extends in every direction
around me.

When we were together
time was non-existent.

While you were exploring my drawers
or discovering silent spots in our yard,
while you were sleeping

I lost myself  in your hours.

Wednesday, October 23, 2013

#619

(image by Adrian)

Não se ocupe
dos espaços vazios
ou da maneira como coisas e pessoas 

se movem suspensas
de um lado para o outro
na ausência de amor.

O mundo fica tão vasto
que parece não mais ser possível 
carregá-lo nos olhos.

O ar fica tão pesado que é 
mais fácil permanecer imóvel
e aproveitar o silêncio.

Eis aqui um segredo:
Um dia você acorda e 
essas impressões terão caído por terra

e você caminhará entre elas
sem memória alguma 
de como começaram,
de como terminaram.


Do not bother with the empty spaces
and the way things and people move
to and fro in suspension
in the absence of love.

The world grows so vast
one can no longer carry it in the eyes,


The air grows so heavy
one would rather sit still 
and use some silence,

(Here's a secret:
one morning you'll wake up,
and these impressions will have fallen to the ground
meaningless
and you'll move through them with
no memory of their ending or beginning.)

Tuesday, October 22, 2013

#618

(image by Raluca Csernatoni)


I.

Estou trabalhando no meu carma,
fiz uma tatuagem no verão passado
- precisava de um mantra -
diz 'deixe ir'.
Ainda assim, 
não sou o Buda.


II.

Essa noite chove muito,
perco a Quadrântida.
Quantos desejos
são desejos demais 
para alguém que só tem
nuvens?


III.

Se eu sair desse lugar
algum dia,
vou seguir o meu caminho
sabendo que você vive dentro
de uma dessas janelas 
iluminadas no meio da noite.
Como descobrir a janela certa?


IV.

Sinto imensamente a tua falta.


I.

Been working on my karma,
got a tattoo last summer
- I needed a mantra -
it says 'let go';
still, I am no Buddha.


II.

Tonight is pouring down,
I'm losing the Quadrantids.
How many wishes are
too many wishes for someone
who only has clouds?


III.

If I ever leave this place
I'll walk my ways
knowing you're inside
one of the windows I'll cross.
How can I guess the right one?


IV.

I miss you so bad.


Sunday, October 20, 2013

#617

(image by Ivan Murdzhev)

Queria dizer que
você não mais precisa
me empurrar.

Já está longe o suficiente
para ainda ter medo das minhas mãos
ou das minhas palavras,

ou de sentir algo.


I wanted to tell you
You no longer have to
push me away.

you're far enough never again
to fear my hands,
or my words,

or feeling anything.

Friday, October 18, 2013

#616

(image by Kalapcs Emoke)

Meus olhos perdem o Norte.
O coração aponta para o Sudoeste.

Onde você sobe e desce morros
de bicicleta 
procurando a sombra das árvores
que são tuas, 
perdido em pensamento, 
solfejando uma música
que talvez eu conheça.

Começo a medir saudade 
em quilômetros,
a pensar a vida em rios,
a estudar mapas para descobrir 
quantas cidades nos separam,
quantas estradas ainda nos unem.


My eyes lose North.
This heart now points to Southwest.

Where you go up and down hills
on a bike
searching for the shade of your own trees
lost in thought while
humming a song I might know.

I start to measure loneliness
in kilometers
to think of our lives as the lives of rivers,
to study maps to discover
how many cities there are between us,
how many roads can bring us together.

Saturday, October 12, 2013

#615


O que quer que eu ame,
o destino rouba de mim

- além de cuidado,
proximidade
e esse coração.

Minhas memórias, 
reduzidas a frases mínimas,
eu as repito 

para fingir que tive um passado,
para fingir que tenho fé no futuro. 

Quando não há pelo que esperar,
vou para a cama chorando
e acordo líquida.

Atravessa-me
como um rio
a mudança.


Whatever I love,
destiny steals from me

- and care, closeness,
and this heart.

My memories, reduced to
minimalistic sentences,

I repeat them to myself
to pretend I had a past,

to pretend I have some faith
in the future.

When I have nothing to wait for,
I go to bed crying and wake up
fluid.

It flows through me
like a river,
change.

Tuesday, October 8, 2013

#614

(image by Julia)

Como é que elas simplesmente
deixam tudo para trás,  
as nuvens?

Eu, que tanto aprecio 
o toque impessoal do chão
sob os meus pés descalços,
eu que tenho medo de altura,
eu que não tenho asas:

A mão gentil do amor
me aproxima do céu
para me ensinar sobre queda.


How can they simply leave everything behind,
the clouds?

I who cherish the impersonal touch of the
ground underneath my bare feet,
I who am afraid of heights,
I who have no wings:

love's gentle hand
carries me to heaven
to teach me about falling.

Saturday, October 5, 2013

#613

(image by Dorottya Sárai)

Gosto de pensar
que haverá algum tipo de amor para mim
no fim do mundo

antes de tudo ficar tão quieto
e escuro 
e não ser mais capaz de ver
a tua mão na minha ou
ouvir o meu coração no teu.

Há um momento entre perder 
alguém no caminho 
e descobrir que as perdas se repetem
em que me pergunto por que escrevo.

Porque escrevo o teu nome no ar,
ele é levado pelo vento.
Não importa o meu lugar no universo,
continuo aqui sozinha.

Porque quando for preciso 
deixar para trás o mundo que criamos,
se decidir ficar com alguma lembrança minha,
espero que seja isso.


I want to believe
there is some sort of
love for me
in the end of the world

before everything goes
so dark and silent that I can't
see my hand in yours or
hear your heart in mine.

There is a moment between
losing someone for the path
and discovering that losses loop,
I wonder why I write.

Because I write your name in the air,
the winds carries it away.
No matter where I stand in the universe,
I'm alone.

Because when time comes
to leave the world we invented behind,
if there is anything about me you decide
not to erase, I wish it's this.


Tuesday, October 1, 2013

#611

(image by Débora)

Preciso esquecer o teu cheiro
porque dois é demais para 
carregar numa caixa.

Dois é muita gente para procurar
no meio de uma multidão.

Percam o teu toque, as minhas coisas,
porque quando você for embora,
nunca mais terão as tuas mãos.

Dois é demais para me lembrar se tiver Alzheimer.
Dois é muita gente para colocar em poemas.



I must forget your smell
because two is a lot of people to carry in a box.
Two is a lot of people to search in the crowd.

They must lose your touch,
my things.
for when you walk out the door,
they will never again have your hands.

two is a lot to remember in case I have Alzheimer's.
Two is a lot of people to write in poems.

Tuesday, September 24, 2013

#610

(image by Lora Palmer)

Essa semana
tem o mesmo gosto ruim

de uma outra, num verão,
quando eu tinha dez anos

e fiquei de castigo 
por ter chutado um garoto

que torceu o meu braço 
enquanto brincávamos

onde sabia que ele sentiria.


This week has the same bitter taste
of another one

in the summer when I was ten
and I was grounded

for kicking a boy who
had hurt me while we were playing

where I knew he would feel it.

Friday, September 20, 2013

#609

(image by Frida)

Na inquietação da tua ausência,
o universo me ocupa
com perguntas
cujas respostas
não encontrarei sozinha.

Nos dias vazios e dormentes
todo mundo de repente tem
o teu nome -

um jogador de futebol 
no jornal da noite,
um garoto malcriado
no supermercado,
um homem que 
conserta guarda-chuvas 
no centro da cidade.

Mas ninguém tem 
o teu gosto,
ou o teu timbre,
ou o teu sossego.


In the uneasiness of
your absence
the universe keeps me busy
with questions whose answers
I won't find by myself.

In the empty,
numb days,
everybody suddenly
has your name -

a soccer player in the ten o'clock news,
a kid throwing a tantrum in the supermarket,
a man who can fix umbrellas downtown.

But nobody has your taste,
or your timber,
or your quietude.

Wednesday, September 18, 2013

#607

(image by Marteline Nystad)


Porque somos feitos
quase da mesma coisa,
sabemos o quanto 
podemos machucar 
um ao outro.

Because we're made of
pretty much the same stuff,
we know how bad we can
hurt each other.

Sunday, September 15, 2013

#606

(image by Issu)

Precisei não pensar.

Precisei escapar do meu corpo
em silêncio e,
invisível,
me assistir de um outro lugar
cinco ou seis passos atrás de nós

e assistir você.

Precisei segurar o fôlego
com o mesmo carinho com que
seguraria a tua mão

e segurar o choro.

Às vezes,
dentro da minha cabeça,
eu flutuo
querendo ser mais como
um homem que vi num quadro
certa vez.

Eu não sou nada.

Mas encontro conforto
na ideia de que
ser não é fixo.


it required a lot of unthinking.

it required escaping my body invisible
and watching myself
from another place
five or six steps behind us
in total silence

and watching you.

it required holding my breathing
as dearly as I would hold your hand

and holding tears.

sometimes,
in my mind,
i float weighless
wishing to be more like
a man i saw on a painting once.

i am nothing.

but i find some comfort
in the thought that
being is not fixed.

Tuesday, September 10, 2013

#605

(image by Zuhal Koçan)

Me invento uma dor
pra te escrever uma rima

ou caminho insistente
pelos teus significados?

O que somos não há,
mas amo-te no olho do furacão,

teus monstros não me assustam,
Eu não vou perdê-lo.

Do I invent myself a pain
to write you a rhyming verse

or should I insist in the walk
along your meanings?

What we are is never going to be,
still, I love you in the eye of the tornado,

your monsters do not scare me,
I am not going to lose you.

#604

(image by Beata)

Contarei que nesse dia 
estive perto o bastante
do meu próprio desespero,

mas saber-te o onde
trouxe-me de volta para casa.

Abraço a palavra impensada 
com o afeto ferido
- o que há sobre cuidado
já foi dito.


I'll say that on this day
I got close enough to
my own despair

And what brought me
back home was
to know you there.

I embrace the thoughtless word
with wounded affection
- my story on care
has already been told.

Friday, September 6, 2013

#603


(Image by Melih Dönmezer)

Aprendo você 
com as mãos para trás,
devagar, 

no escuro,
ouvindo a sua respiração,
em longas conversas 
com os teus fantasmas.

Alheio às terríveis complicações
de ser duro, 
mantém as pessoas longe
cercando-se de silêncios
e muros.

Mas uma vez você segurou a minha mão,
uma vez amarrou o meu cadarço,
eu sei que você tem um coração.

Eu o vi uma vez,
por trinta segundos.


I learn you without my hands,
I learn you in the dark,
by listening to your breathing,
by making friends with your ghosts.

Unaware of
the terrible complications
of being tough,
you surround
yourself with silence and walls.

But once you held my hand,
once you tied my shoelaces,
I know you have a heart.

I've seen it 
once,
 for thirty seconds.

Thursday, September 5, 2013

#602

(image by Pierre Turtaut)

Alguém vai ler você
no meu sorriso hoje.

No ônibus a caminho
do trabalho,

ou no meio da explicação
de uma estrutura gramatical complexa.

alguém vai vê-lo
e sorrir de volta.

Someone will read you
on my smile today

on the bus
on my way to work

or in the middle of the explanation
of a complex grammar structure

someone will notice you
and smile back.

Wednesday, September 4, 2013

#601

(image by Carina Sirbu)


Noite passada sonhei 
que nunca nos falamos.

Éramos apenas duas pessoas 
seguindo seus caminhos.

Teus olhos perderam os 
meus e tive tanto medo.

A vida nunca pareceu
tão triste e vazia.


last night I had a dream
we never spoke.

we were just random people
on our ways somewhere.

your eyes missed mine,
I was so scared.

life never looked
so dull and sad.

Tuesday, September 3, 2013

#600

(image by Anna Kirsten)

Esse universo 
só existe
pelo seu coração.

Se você não lê o que escrevo,
eu não te amo,
nunca conversamos
a caminho do trabalho,
nunca houve
livros para compartilhar,
tempo para gastar,
nunca me apaixonei
pela sua mente notável
ou reclamei
da sua falta de compaixão.

Se você não lê o que escrevo,
eis o que entendo:
o que quer que tenhamos sido,
agora chegou ao fim,
algo em  nós está quebrado,
você está cansado,
não temos conserto. 
Se você não lê o que escrevo.


This whole universe
does not exist
if not for your heart.

If you don't read it
I don't love you,
we never spoke
on my way to work,
there were no books to share,
no time to spare,
I never came to adore
your remarkable mind
and complain about your
lacking of a heart.

If you don't read it
here's how I understand:
whatever it was,
it has now come to an end,
we're broken,
you're tired,
you no longer want fix it.
If you don't read it.

Friday, August 23, 2013

#599

(image by Concepcion)

Teus olhos são outros.
Conversam com os meus
ainda fechados.

O primeiro sorriso do dia
foi você quem trouxe.
O cheiro de chuva,

a saudade de lugares que
não conheço,
onde estiveram os teus pés, 

onde dormem tuas perguntas.
Por você, eu quero
escrever um mundo.


Your eyes are different.
They speak to mine
long before I'm awake.

The first smile of the day
was brought by you,
the smell of rain,

the nostalgia of places
I've never been to
places you have walked,

places where your questions sleep.
For you,
I want to write a world.

Thursday, August 22, 2013

#598

(image by Stéphane P.)

Escreve promessas
pelas minhas paredes
onde ainda ontem
colecionava sombras.

Ainda ontem, 
havia o teu fantasma
tropeçando no escuro
do quarto para o banheiro.

Ainda ontem, no espelho,
a soma de 
todas as minhas 
angústias.

You write promises
on my walls
where right yesterday
I collected shadows.

Right yesterday
there was your ghost
stumbling around

Right yesterday
the sum of all my angst
drifting away
on the mirror.

(To my dearest friend Julio Ceoli)

Wednesday, August 21, 2013

Das tentativas mal sucedidas de me escrever uma história de amor | On my unsuccessful attempts to write myself a love story


(image by Madelaine)

Eu tentei outras vezes.
Mas tenho mãos pequenas.

Não posso manipular a luz.
Não posso carregar o mundo.
Não posso tocar as estrelas.

Acredite, eu tentei.


I've tried it before.
But I have small hands.

I can't handle light.
I can't carry the world.
I can't reach for stars.

Believe me, I've tried.

Sunday, August 18, 2013

#597

(image by Hannah James)

Quase não digo.

Essas palavras 
não vão salvar o mundo,

Essas palavras 
não me pertencem.

Então construo castelos no ar
com paredes feitas de amor sólido.

Amor, como latim, 
uma língua morta. 

I almost don't say it.

These words
they won't save the worlds.

These words
they don't belong in me.

So I build castles in the air,
their walls made of solid love.

Love, like Latin,
a dead language.

Tuesday, July 30, 2013

#595

(image by Tobias Zeising)

Ficar acordada na cama
com pensamentos que
nenhuma moeda pode comprar.

Protegê-los do tempo
que habita a escuridão
e espia

a minha mente
através de uma fresta
nos dias.

Ele vai roubá-lo de mim,
o tempo.
Virá quando eu estiver

muito triste ou
cansada demais 
para lutar contra

o estado de ser
nada além de
uma memória perdida.


to lie awake in bed
with thoughts of you
no penny could buy

to guard them from
time which dwells
in the dark and spies

on my mind through
a crevice in the days.
it will steal you from me,

time. it will come
when I'm the saddest
and too tired to fight off -

the state of being
nothing but a
lost memory.

Sunday, July 28, 2013

#594

(image by Rémi)

O caos que habita em mim
saúda o caos que habita em você.

Não sei aonde estamos indo
mas sei de onde viemos - 

de universos solitários parecidos,
crescemos desordenados,
tornamo-nos impossíveis juntos,

ainda assim, 
só o teu abraço cala os meus medos.

Chaos within me
honors chaos within you.

I don't know where we're going,
but I know where we come from

- we come from similar lonely universes,
which grew straggly, making us impossible together,

still, it's only when you hold me close to your heart
I forget about my fears.


Thursday, July 25, 2013

#593

(image by Egle Vismantaite)

Eu sou Frida.
O destino me prendeu à cama
para que não pudesse voar.

Primeiro
desmontou-me
como um rádio quebrado.

Os pedaços perdidos
tornaram-me 
uma canção impossível.

Eu, que sou feita de
carne e desejos,
fui mergulhada em clorofórmio,

embalsamada
e colocada num sarcófago
por um mês.

A morte dançou em torno
de mim tantas vezes
sem explicar porque fui poupada.


I am Frida.
Destiny nailed me to bed
so I could not fly.

First
it dismantled me
like a broken radio

lost pieces
made me into an
impossible song.

I, who am made of
flesh and wishes,
have been chloroformed

embalmed
and put in a sarcophagus
for a month.

Death danced around me
so many nights, I wish he
explained why I was saved.

Wednesday, July 24, 2013

#592

(image by Felipe Dunley)

Vou enterrar as últimas palavras
sobre você em algum lugar
às margens do Sena.

Entre todas as histórias
contadas pelas esquinas de Paris
talvez alguém encontre a nossa.

Se o dia não estiver
muito frio para uma caminhada.
Se não for muito tarde.


I'm gonna bury the last
word about you somewhere
in the banks of the river Seine.

Amongst all the stories
told by Parisian corners
someone might find ours,

if it's not too cold a day
for an enjoyable walk.
Or too late.

Tuesday, July 23, 2013

#591


Venho para casa uma noite e
encontro um grande olho amarelo
sentado num copo na soleira da janela. Ele dorme. 

Uma vez foi um botão
em formato de margarida.
Lembrou-te um girassol 
e trouxe-o para mim.

No meio da noite rouba-me
para longas conversas 
com as estrelas e risos
com as ruas vazias. 

Nos dias mais difíceis,
ainda te espero nas coisas pequenas.


I come home one night and find
a big yellow eye, sitting in a glass
on my window sill. It sleeps.

Once it was a button shaped like a daisy,
you thought it looked like a sunflower,
and wanted me to keep it.

You steal me from home in
the middle of the night
for long conversations with stars
and laughs with the empty streets.

In the worst days,
I still wait for you in the little things.

Monday, July 22, 2013

#590


Escrevo para ficar em paz 
com a minha consciência.

Daqui a quinze anos, 
quando olhar para trás,

quero ser capaz de sorrir 
e saber em meu coração

que te quis na minha vida 
mais do que qualquer outra coisa

e lutei por isso.


I write to be at peace with my conscience.
Fifteen years from now, when I look back,
I want to be able to smile and know in my
heart I wanted you in my life more than
anything else and I fought for you.

Sunday, July 21, 2013

#589

(image by Cristina Matei)

Eu sei que você vem
quando adormeço.
Escolho não ver.

Ultimamente parece
mais fácil cavar abismos
do que amar.

Quando espero a coragem do contrário,
vem sem roubar-me os silêncios,
sem modificar-me os espaços

e parte antes de querer ficar. 
Inúmeras vezes no último ano 
tive vontade de lhe dizer isso:

Meu coração não procura substitutos.

É você a minha paz,
e vive no pouco que gostaria
de abraçar depois do fim.



I know you come
when I'm half asleep.

I choose not to see.

these days it's easier 
to dig an abyss

than to love. 

Whenever I expect rebellious courage 
you come and leave me unaltered with my silences

you come and leave me with these spaces.

You part before you feel like staying.
In many occasions last year, I wanted to tell you this:

my heart never looked for replacement.

you are my peace.
you dwell among the few things

I wish I could embrace after the end.


#588


(image by Courtney)

Sua aversão às minhas palavras
me impôs um  padrão.

não devo falar de amor
não devo dizer o seu nome
não devo expressar meus desejos
tudo em um mesmo poema.

Essa é certamente a
mais dolorosa das restrições.

Your hatred of my words
has imposed me a pattern.

I must not speak of love
I must not say your name
I must not tell my wishes
all in the same poem.

This has to be the
most painful constraint.

Friday, July 19, 2013

#587

(image by Steven Miles)

Você pode aprender algumas
coisas importantes sobre mim 
se tiver calma.

Eu não tenho.
Quero que a vida aconteça logo,
apesar do medo de envelhecer.

Pulo linhas para chegar 
mais rápido ao fim de livros chatos.

Raramente escuto uma música inteira.
Gosto dos meus legumes 
levemente mal cozidos.

Visto roupas antes de estarem 
completamente secas.

Não consigo escrever haicais.
Não consigo pensar jogos de xadrez.
Não consigo ficar quieta.

Mas gosto de seguir pequenos insetos
a lugares onde não me encaixo e 
passar horas pensando em suas
vidas secretas.


You'll learn a few important things about me
if you are calm.

I am not.
I want life to happen soon,
in spite of being scared of growing old.

I skip lines in books sometimes
to get to the end fast when I find them boring.

I rarely listen to an entire song.
I like my vegetables undercooked.
I put on clothes before they're completely dry.

I can't write haiku.
I can't think chess.
I can't sit still.

Still I like to follow tiny bugs going places
I don't fit in, and spend hours thinking about
their secret lives.

Thursday, July 18, 2013

#586

(image by Eva)

Três minutos de felicidade à distância 
e o mundo perde uma volta,

fogem minhas palavras aos primeiros 
sinais de terremoto.

Os sentimentos extremos deveriam
vir acompanhados de vertigens mínimas.

Como alguém pode manter o equilíbrio
em meio a tantas borboletas?

three minutes watching happiness
at distance and the world misses a turn

my words abandon me at the first sign
of an earthquake

extreme feeling should be accompanied
by minimal dizziness

how can one keep balance
with so many butterflies around?

#585

(image by Visceral)


Alfinetes, agulha e linha
para bordar um coração nesse peito

meça a altura e a largura,
calcule o número de pontos

para estar certo de cobrir
todo o modelo.

Faça-os apertados o suficiente
para não se desmancharem cedo,

mas não tão duros que
me causem sufoco.


Pins, needle and thread
to embroider a heart to this chest

measure the height and the width
calculate the number of stitches

to make sure you can cover
the entire motif

make them tight enough
it won't fall off

but not so stiff
it can't beat.


Wednesday, July 17, 2013

#584

(image by Kassyd)


365 caixas vazias no calendário,
não estamos em nenhuma delas
existimos em lugares separados,
contentes com nossa insignificância.

Eu finalmente entendi o que
você tentava me dizer.
Se pudesse corrigir um erro
ainda não seria você.

Gosto de tê-lo vivido
quando tinha medo de que
você nunca mais fosse o mesmo.
Agora você não é. 

365 empty boxes on the calendar,
we aren't in any of them
we exist in separate places,
insignificant, but content.

I have finally understood
what you were trying to tell me.
If I could correct a mistake
it still wouldn't be you.

I like it that I lived you
when I feared you'd never
be the same if you left.
Now you are not.


Friday, July 12, 2013

#583

(image by Cristina)

Foi só recentemente,
aprendi que desapego não é desistência.
desapegar é reconhecer 

que a existência não é permanente,
que a vida flui e o mundo não é estático:
ele rodopia,

exigindo do homem vinte e três horas, 
cinquenta e seis minutos 
e quatro segundos para as estrelas, 

exigindo que o homem passe por
invernos cinzentos 
antes de ter o azul do céu de volta,

exigindo que o homem seja 
um homem diferente, 
repetidas vezes.

E há a desistência.


It was only recently 
I have learned that to let go is not like to give up.

to let go means to acknowledge that existence is not permanent,
that life is flowing and the world is not still:
it twirls,

taking a man twenty three hours, fifty-six minutes and four seconds for stars,
taking a man to go through the grayest winters before he can have blue skies back,
taking a man to be a a different man, on a loop.

and then there is to give up.


Thursday, July 11, 2013

#582

(image by Marlies Plank)

Caminhando entre pássaros 
dos quais ninguém sentirá falta, 

no asfalto quente cobertos 
de pó e imundície

mortos por homens dentro de garotos
armados de bravura e estilingues

que direito tenho eu
de me sentir quebrada?


Walking among birds no one will miss
covered in dust and dirt on the hot asphalt

killed by men inside boys
armed with bravery and slingshots

what right do I have
to feel broken?

Wednesday, July 10, 2013

#581

(image by Kerti)


Estas linhas pertencem à sua pele, aşkim.

Escrevê-las pelo seu corpo
exigiria as escolhas que não fiz.

Sonhei muito com o espaço,
mas esses pés precisavam de chão.

Criaram raízes, esses pés,
para que eu ainda pudesse crescer 
e ver acima das nuvens.

Ele diz que não posso amá-las
nem as cirrus, nem as stratus,
porque eu não amo nada.

Eu sou uma fraude, ele diz.

Mas não é maravilhoso
ter habitado uma semente 

antes desse corpo,
indo e vindo novamente?

Eventualmente me tornarei
alguma coisa bela.


These lines belong on your skin, aşkim.
to stand before your eyes and

and write them all over your body
would have taken choices I never made -

I dreamed of the the outer space.
but these feet needed ground.

They've grown roots, these feet.
so I could still grow tall and see above the clouds.

He says I am not
allowed to love

the cirrus or the stratus
because I don't love anything.

I'm a fraud, he says.

but isn't it wonderful
that I've inhabited a seed

before this body,
coming and going?

I must turn into something
beautiful eventually.

Tuesday, July 9, 2013

#580

(image by lazystarling20)

Pela terceira noite consecutiva, ele vem até a janela e respira tão perto que embaça a vidraça. O rosto, repentinamente borrado, quase não se reconhece. Não fica parado ali por muito tempo. O gato no telhado, a lua cheia, o trem das duas nunca o encontram. Se ele lê ou fica acordado na cama, ficamos de fora, esperamos com as estrelas.

Nunca há uma porta que se abre.



For the third night in a row he comes to the window and breathes so close that the pane steams up. His face, a sudden blur against the street lights, I can barely recognize it. He doesn't stand there for long, the cat on the roof, the full moon, the 2 a.m. train, they never meet him.  Whether he reads or lies awake in bed, We sit outside, waiting on the stars. 

There is never a door that opens.  

Monday, July 8, 2013

#579

(image by Stanislav Holý)


É como estar de volta
ao quintal onde cresci
entre bonecas e insetos.

Brinco na grama,
numa tarde quente,
persigo grilos.

Não os apanho.

It's like being
Back in the yard
Where I grew up
Amongst dolls and bugs.

I play on the grass,
In a hot afternoon,
I chase crickets.

I can’t catch them.